Ambiente

Sede de soluções: 6 formas de enfrentar o stress hídrico crescente a nível mundial

As cidades inteligentes recorrem a diversas tecnologias para melhorar a experiência dos residentes. São impulsionadas pela inovação digital e podem tornar-se fundamentais para alcançar as metas de um mundo com emissões líquidas nulas.

RCIRisalat Consultants International
29 de janeiro de 2024 · 5 min de leitura
Sede de soluções: 6 formas de enfrentar o stress hídrico crescente a nível mundial5 min de leitura

Mais de 70% do nosso planeta está coberto de água. Poder-se-ia pensar que ela é abundante. No entanto, continuamos à beira de uma crise mundial da água. Isto acontece porque a água doce, a que utilizamos para beber, para a rega e para a grande maioria das atividades diárias, representa apenas cerca de 3% do volume total, ou seja, é extremamente rara. Além disso, a maior parte da água doce não está disponível para utilização, pois encontra-se retida nos glaciares. Em consequência, milhões de pessoas em todo o mundo enfrentam problemas de acesso à água, escassez, saneamento e muito mais. Mais de mil milhões de pessoas sofrem de stress hídrico e quase 2,4 mil milhões estão expostas a várias doenças devido a um saneamento inadequado.

O que está a causar o stress hídrico e onde é mais prevalente?

O stress hídrico é um rácio que mede a procura de água face à oferta renovável. A procura de água tem crescido substancialmente: desde 1960, mais do que duplicou, e prevê-se que esta tendência continue. Até 2050, prevê-se que mais 1 mil milhões de pessoas passem a viver em situação de stress hídrico extremo. O agravamento da escassez de água deve-se, em grande medida, ao crescimento da população mundial, às alterações climáticas, a uma gestão insustentável da água, a políticas de utilização deficientes e a infraestruturas inadequadas. Formalmente, a escassez de água divide-se em duas categorias: a escassez devida às condições ecológicas e a escassez económica, ou seja, a falta de infraestruturas adequadas para fornecer água.

Nem todos os países sofrem o mesmo grau de stress hídrico, pois cada um dispõe de níveis diferentes de reservas, bem como de abordagens de gestão e medidas de mitigação de riscos distintas. O Barém, Chipre, o Koweit, o Líbano, Omã e o Catar lideram a lista dos países com maior stress hídrico. O Médio Oriente e o Norte de África são as regiões que mais sofrem com a escassez de água, expondo quase 83% da sua população a níveis extremamente elevados de stress hídrico. Segue-se-lhes o Sul da Ásia.

O que esperar da atual tendência de escassez de água?

Segundo as estatísticas mais recentes, mais de 30% do PIB mundial (cerca de 70 biliões de USD) será afetado pela escassez de água até 2050. Estes números podem traduzir-se num crescimento económico comprometido e num forte aumento da insegurança alimentar a nível mundial. Além disso, a privação de água pode favorecer a transmissão de várias doenças, desde a cólera e a febre tifoide até à poliomielite, à diarreia e à hepatite A.

Como enfrentar o stress hídrico a nível mundial?

O aumento do stress hídrico é um desafio extremamente complexo que exige um compromisso mundial. Deve ser enfrentado com uma combinação de esforços de conservação, medidas políticas, inovações tecnológicas, infraestruturas sólidas e incentivo a um consumo mais responsável. Eis algumas das principais decisões estratégicas para reduzir os níveis de stress hídrico:

  1. Repensar as práticas agrícolas

O primeiro passo para enfrentar os problemas de stress hídrico é ter consciência dos recursos disponíveis. Isto significa fazer todos os esforços possíveis para a sua conservação. Várias tecnologias podem ajudar a minimizar a utilização de água, sobretudo nos setores com uso intensivo de água. Por exemplo, a agricultura é reconhecida como um dos principais contribuintes para a poluição da água e o epicentro dos desafios do stress hídrico. Por isso, este setor pode muito bem ser também a origem das soluções.

Com os sistemas de rega gota a gota, podemos levar a água diretamente às raízes das plantas, minimizando as perdas por evaporação ou escorrência. Os sistemas de medição da humidade do solo detetam as necessidades reais de água das plantas, evitando a rega excessiva. As tecnologias de agricultura de precisão, como o GPS e a deteção remota, permitem aos agricultores ajustar a aplicação de água e nutrientes às necessidades de cada parcela, otimizando a utilização de fatores de produção e o rendimento das culturas. Os algoritmos de IA e machine learning facilitam uma tomada de decisão mais prudente, por exemplo, ajudando a criar calendários de rega eficientes, a selecionar as melhores variedades de culturas para determinadas condições ou até a prever tendências de mercado para o planeamento estratégico.

Proteger e preservar a qualidade da água é outro aspeto crucial. Os sistemas de biofiltração são eficazes na remoção de poluentes da água. As culturas de cobertura e a mobilização de conservação do solo são algumas das estratégias proporcionadas pelos avanços tecnológicos para proteger a qualidade da água. Ambas podem ajudar a reduzir a erosão do solo e a escorrência de nutrientes.

  1. Transformar as políticas da água

Políticas da água sustentáveis são essenciais para aliviar o stress hídrico. A abordagem da gestão integrada dos recursos hídricos (GIRH) considera todo o ciclo da água, bem como os diferentes utilizadores do recurso. Ajuda a equilibrar procuras concorrentes e, consequentemente, evita a sobre-exploração de uma determinada fonte. Além disso, a GIRH otimiza a afetação da água, distribuindo-a de acordo com as prioridades dos utilizadores dos diferentes setores. A abordagem salienta também a importância do envolvimento das comunidades na gestão dos recursos hídricos e na sustentabilidade a longo prazo.

  1. Desenvolver e modernizar as infraestruturas hídricas

A modernização das infraestruturas hídricas pode ajudar a aumentar a eficiência e a reduzir as perdas por fugas. Isto inclui a reparação e substituição de condutas, bombas ou reservatórios envelhecidos. A instalação de tecnologias inteligentes, como sensores, contadores e sistemas de monitorização em tempo real, pode ajudar a otimizar a distribuição da água, detetar fugas e fornecer dados para uma tomada de decisão mais prudente. A modernização e construção de estações de tratamento de águas residuais pode contribuir para a criação de um sistema de economia circular da água, oferecendo uma alternativa sustentável para as necessidades hídricas.

  1. Promover o consumo responsável

A redução dos níveis de stress hídrico é uma responsabilidade partilhada por todos. É por isso que os países têm de sensibilizar a população para a escassez de água e as suas implicações. Além disso, é essencial promover um consumo responsável de água para garantir a sustentabilidade e a resiliência a longo prazo em todas as comunidades.

  1. Promover a cooperação transfronteiriça

Como os desafios relacionados com a água ultrapassam frequentemente as fronteiras nacionais, é extremamente importante obter um compromisso internacional para resolver as questões mais prementes. Os países e as regiões partilham recursos hídricos, muitas bacias hidrográficas abrangem vários países, a poluição das massas de água tem origem num local e afeta as zonas a jusante, e as secas têm impactos regionais e, por vezes, até mundiais. Por isso, o mundo tem de compreender que enfrentar a escassez de água exige um esforço conjunto e não uma ação isolada. A criação e aplicação de normas internacionais, por exemplo em matéria de qualidade da água, prevenção da poluição e circulação de poluentes, pode desempenhar um papel decisivo na resolução dos desafios relacionados com a água.

  1. Investir na investigação e na inovação

A investigação e a inovação são cruciais para desenvolver soluções sustentáveis que facilitem a redução do stress hídrico. Constituem a base de uma tomada de decisão informada. A investigação ajuda-nos a compreender melhor os nossos sistemas hídricos, incluindo os ciclos hidrológicos, a dinâmica das águas subterrâneas e o impacto das alterações climáticas na disponibilidade de água. Este conhecimento é fundamental para uma gestão eficaz da água. Os avanços tecnológicos ajudam a controlar e reduzir os níveis de stress hídrico. Por exemplo, a tecnologia de dessalinização pode proporcionar uma fonte adicional de água doce em regiões que enfrentam uma escassez grave.

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